Mostra de Cinema de Tiradentes desperta olhares políticos

Cineastas, atores e produtores discutiram questões contemporâneas

Rodrigo Bessa (De Tiradentes)

Encerrou-se ontem a 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada de 21 a 29 deste mês, com exibição de 134 longas e curtas metragens, oficinas e debates sobre a produção recente brasileira. Com recorte do cinema político, a nova geração de cineastas exibiu filmes com reflexões sobre questões contemporâneas. 

A programação gratuita contou com três espaços. O Cine-Praça aconteceu no largo das Fôrras, praça principal de Tiradentes, instalado ao ar livre para uma plateia de aproximadamente 1.500 pessoas. O CineTenda foi instalado no largo da rodoviária, com 700 lugares; para a Tenda Bar Show e o Cinecafé, onde houve exibição de filmes brasileiros em pré-estreias nacionais e mundiais e shows com artistas convidados. No Centro Cultura Yves Alves, exposição com painéis fotográficos com programação de longas e homenageados desta edição, como o ator Irandhir Santos e o cineasta carioca Paulo Cezar Saraceni.

 

 

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O ator homenageado, Irandhir Santos e o cineasta Bigode 

Para o cineasta Luís Carlos Lacerda, o Bigode, o cinema político de hoje tem um olhar bem diferente dos tempos da ditadura militar.

- Na época da ditadura, os filmes tinham a finalidade de denunciar as torturas e o que acontecia no cenário político. Por exemplo, o primeiro filme do diretor Paulo Cesar Saraceni, “O Desafio” de 1965; e na década de 1980, “O bom burguês” dirigido por Oswaldo Caldeira e “Pra frente, Brasil” dirigido e escrito por Roberto Farias. Hoje, os filmes apresentam outra questão política, abordam a corrupção e a criminalidade. Exemplo é “Tropa de Elite”, de José Padilha, um cinema de confronto que pretende ser transformador - avalia.

Homenagem

O ator homenageado Irandhir Santos diz se sentir coautor ao participar de longas-metragens como “Tropa de Elite 2” e “Olhos azuis”.

- Falar de cinema político, não tem como deixar de citar o cinema novo de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, que contribuíram para a minha formação. Acredito muito no cinema autoral e me sinto coautor quando trabalho em projetos como estes. Trabalhei no filme “Tropa de Elite 2” e me sinto feliz de fazer parte de uma obra magnífica e criativa de José Padilha que chamo de um grande encontro. Acredito muito no cinema político. E meu pai sempre me chamou de curioso, confesso que sou - declarou Irandhir.

Afetividade na tela

O crítico de cinema Rodrigo Fernandes da Fonseca afirma que não existe nada mais político no cinema contemporâneo do que abordar as questões de afetividade.

- Em geral, a cobrança de que falta de um discurso político por trás, posso dizer que é um pouco leviano cobrar um discurso do passado dessa nova geração. Não posso achar Hollywood ruim, serei hipócrita, pois fui criado assistindo ao desenho “Caverna do Dragão”. Falar de política no cinema é abordar questões de afetividade, ou seja, filmes que abordam as relações de amor e amizade. Esta multiplicidade de contar histórias no cinema - comenta Rodrigo.

Discurso político

A atriz Cristiana Peres, que irá trabalhar no filme “Faroeste Caboclo”, inspirado na música de Renato Russo, diz que interpretar uma personagem é um discurso político.

- Atuar não deixa de ser um discurso político, pois você lida com o público, e também por causa da responsabilidade da comunicação, de apresentar uma nova ideia. A arte é livre para discutir questões políticas - define Cristiana.

O preparador de atores Sérgio Penna é da opinião de que atuar pode ser uma manifestação política.

- À medida que você tem uma história, um personagem, através do seu trabalho com máxima verdade, com o reflexo da obra na sociedade, toda essa convicção que leva o diretor a uma obra cinematográfica. Isso, com certeza, é manifestação política - conclui

 

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Oficina Realizando um curta-metragem com a supervisão do cineasta Bigode

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Oficina de Interpretação para Cinema com o preparador de atores, Sergio Penna

O Cine-Praça